prelúdio: fico sempre com os olhos abertos. sempre. mas nunca vejo nada. em vez de fecharem ficam abertos. não consigo perceber. deviam fechar. deviam fechar e eu devia ver palmeiras e florestas tropicais. devia haver humidade. mas não, estão sempre abertos e quer esteja a olhar para ti ou para a vida só vejo deserto. ora branco, ora amarelo, ora laranja, ora castanho. devia ser diferente. devíamos ser melhores. devíamos ser quase. devíamos ser quase qualquer coisa. mas nem isso fomos. nem isso fui. e agora não há amazónia para ninguém. no deserto ninguém se decompõe, seca. seca tudo aqui. até eu com as costelas à mostra sou festim de escorpiões e camaleões num buffet de moscas. onde é que está um cacto quando faz falta? ao menos estava a sombra a decompor. nem isso, nem isso.
se fosse na amazónia: vivíamos para sempre. vivíamos por nós e por todos e ficávamos colados e fundimo-nos e éramos metades de qualquer coisa. éramos quase qualquer coisa. e com o verde tropical por trás as moscas não pareciam mal. os cogumelos nasciam que nem formigas num açucareiro. as trepadeiras vinham e era flor e folha por tudo quanto é membro. mostrava-mos ao adão e eva como é que se usam folhas de hera como deve de ser. mostrávamos ao mundo o adónis mais bonito de sempre. o david mais forte. o ulisses mais histórico. mostrávamos ao olimpo que este templo não era deles, era nosso. éramos a amazónia, que se construía aos nossos pés. éramos o mundo que sustentávamos. éramos eternos, como os deuses.
realidade: aqui não cresce nada. os bichos enterram-se, escondem-se do sol. eu sou grande mais para cavar um buraco e enterrar-me. exigia horas de trabalho e escavações e toda a gente sabe que esta areia está cheia de faraós. é terra sagrada, não se cava. até é bonito apodrecer aqui. é uma questão de interpretação. com tanta coisa no mundo, tanta cor, tanta mistura, aqui só há azul e amarelo de perder de vista - e chega. isto é tudo uma questão de interpretação. eu sou um templo. um grande templo. para estes escorpiões eu sou o templo deles. para estas moscas eu sou a torre effeil. para estes camaleões eu sou um buffet de um casamento real. no fundo, é tudo uma questão de interpretação.
olha para ser sincero eu já não montava a tartaruga há um quanto tempo. pode não fazer sentido, mas para quem estava com prisão de ventre como eu, soube bem.